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Hoje celebro 1 ano de partidas e de despedidas.
Foram quase imperceptíveis os dias que levaram a uma mudança tal.
Provei uma saudade constante e experimentei o sabor de uma cultura tão presente e distante ao mesmo tempo...
Construí um caminho de retratos e de certezas e caminhei todos os dias acreditando...!
E até nos momentos mais difíceis fui fiel a tudo quanto quero para mim.
Todos os dias acordei com a certeza de que jamais me arrependeria e que para sempre agradeceria.
 

O Brasil selou em mim a consciência do ensinamento diário e a urgência constante de ultrapassar fronteiras.

Nestes últimos meses em que tudo aparentemente mudou na minha vida, provei o sabor de uma cultura diferente, distante e em efervescência económica. Só económica.

Abracei a oportunidade que tanto precisava para me sentir capaz e reconhecida, na esperança que esta me traria a chance de me afirmar e de enriquecer o caminho que planeio traçar.

Não é de todo o arrependimento que me tem desacelerado. É antes a falta das minhas pessoas e do calor que me dão. Daquele aconchego de que precisamos para não nos sentirmos perdidos e sonâmbulos. É até a falta do território que eu entendo por meu, por nosso.

Ultrapassei milhas num oceano de distâncias para reconhecer, uma vez mais, o valor que o nosso país tem para mim. A necessidade que tenho em ser pertença dele.

No entanto, mantenho em mim o gosto pela conquista e a curiosidade que fervilha sempre que surge a vontade de ultrapassar fronteiras e conhecer outros lugares.

A esta distância identifiquei diferenças que todos pensam serem semelhanças. E vácuos onde todos pensam encontrar conteúdo.

Não obstante, este país tem a música e os autores e tem a mão de alguém superior que escolheu o Brasil para pincelar quadros de natureza deslumbrantes e extasiantes, como se de um milagre se tratasse.

O choque, ainda que minimamente esperado, residiu na dificuldade em me fazer entender. Sim, falamos a mesma língua. Mas...

Aconteceu também ao aperceber-me do distanciamento à realidade portuguesa. E para quem carrega na mala um orgulho genuíno das suas raízes, este fato exigiu um esforço reforçado na necessidade de compreender o porquê e de aceitar, sem chauvinismos. No final de contas, procurar integrar-me numa cultura distinta faz parte do desafio a que me propus.

O contraste que fui encontrar no ambiente de trabalho reflete uma convivência pacífica com a informalidade e a descontração. A natural simpatia e o sentido de humor estão sempre de mãos dadas com a tolerância. E o relacionamento entre líder e subordinado é ténue quando comparado com a realidade portuguesa que se apresenta sempre com um maior distanciamento. 

Batendo perna pela rua em botecos, lanchonetes, drogarias, lojas, supermercados e espaços públicos notamos uma distribuição sobre doseada dos recursos humanos. De forma geral, essa situação acaba por ocasionar uma estrutura organizacional confusa e até enigmática por vezes, mas, por outro lado, uma taxa de desemprego quase inexistente no país.

O Brasil é hoje um país em franca ascendência e consequente reconhecimento, mas, no dia-a-dia os contrastes são evidentes e sente-se de forma generalizada uma falta de interesse pelo que existe para além do conhecimento geral. 

Refletindo sobre a experiência, eu concluo que ela me trouxe de forma positiva mais uma barreira, mais um obstáculo, mais um ambiente, mais relações humanas. Com ela tenho conhecido novos limites, novas conquistas, e perdas também. Mas nela tudo, tudo mesmo, me há-de fortalecer ainda mais.

Teres a coragem de sair da tua zona de conforto e testar a tua resistência humana e emocional em prol de uma promessa e de uma esperança falece na falta de valorização, confiança e parceria. Mas aos poucos sinto que tudo está a chegar, sem que para isso seja preciso gritar e implorar.

Estou feliz por ter sido parte integrante deste projeto e ter tido a chance de ensinar como é Portugal.

Uma gota num oceano de separação, é certo. Mas marquei presença e passei a palavra.


Este é o lugar onde reina uma paz suave e onde a natureza nos presenteia com um cenário marcante.

É encantador perceber a variação dos tons da Pedra do Elefante de acordo com a luminosidade do dia. E impossível esquecer aquelas caminhadas sem fim por riachos e trilhas para nos encontrarmos com cachoeiras e com flores silvestres que só moram ali.
Poucos associariam este espaço ao Brasil mas a verdade é que se estivermos bem atentos, tudo nele tem que ver com a Terra Prometida.
Enquanto existirem pedaços de terra como este, seremos certamente felizes e não mais duvidaremos sobre qual o caminho certo a seguir.


Sempre-vivas caldo de mandioca 
poção orquídeas a brotar de troncos rede na varanda 
gavião bando de piriquitos verdes Marley
borboleta gigante arroz e feijão goiabada 


Ter tido a oportunidade de entrar na Rocinha foi surpreendentemente surreal e marcante.
Vi-me no meio de um cenário que é naturalmente temido mas que ao mesmo tempo desafia e cria em todos uma curiosidade formigante.
O espaço é fiel às imagens que nos chegam e a impressão no estômago graças ao nervoso miudinho que se sente acompanha-te do início ao fim.
Foi importante mais do que conhecer, entender! Entender o que todos generalizam.
É impressionante a disposição das casas, a largura das ruas, os animais, as crianças, os sorrisos.
Uma cidade dentro de outra - mais de 70 000 moradores.
Bem lá do alto, a vista é desesperadamente contrastante. Tu não paras de pensar e só sentes estar numa realidade à parte mas estupidamente autêntica. A Rocinha divide espaço com a alta sociedade carioca.
Sim, o cheiro é tantas vezes nauseabundo e o lixo passeia nas ruas nos poucos espaços onde o tijolo não impera. O saneamento básico só agora começa a chegar. A luz elétrica é um emaranhado de fios que acompanha as ruas sem nome. 
As crianças, não conhecendo outra realidade, convivem com tudo isso e sorriem-te, estendem-te a mão e mostram que são felizes.
Além das construções irregulares, a favela marca diferença pelo movimento constante, pelos sons e pelos moto-táxis que aceleram nas curvas - aqueles que nos levaram até ao topo da Rocinha.
Durante o percurso cruzamo-nos com policiais que marcam agora presença graças ao processo de pacificação que querem levar a cabo. 
Os moradores aceitam naturalmente o seu habitat e muitos deles já começam a trazer para a comunidade uma postura distinta, procurando reconhecer a importância da educação e entendendo o conceito de sociedade. Graças também a alguns intervenientes externos que procuram ter uma atitude cada vez mais ativa na vida destas pessoas.
É um lugar hostil quando te apercebes das balas marcadas nas paredes das casas e do cuidado no comportamento que tens de adotar por forma a não melindrares ninguém com a tua presença e a salvaguardares quem ali te levou.

É estonteante pensar que estive lá.


É um sem mar de apertos
Um vai e vem de quereres, de esperas e anseios
O sol aqui bate de frente, beija-te a cara. É forte, vivo e quente.
O único vizinho que tenho é o tempo, aquele que passa e traz promessas.
Luto contra a apatia disfarçada do povo e continuo o caminho que me trouxe até aqui, na esperança que este me leve a outros lugares e a outras viagens.
Tudo valerá a pena, até no ponto mais recôndito do mapa, até na mais vulgar prova de amor.
Acredito na valência de uma aposta. Esta aposta veloz que procuro todos os dias encontrar nas palavras que escolho e nas atitudes que naturalmente espelham quem sou.
Procurando ser sempre melhor, aprendendo todos os dias com o pormenor que tão frequentemente nos escapa entre dedos.
Quero percorrer caminhos que me abram portas para a cultura e para o rosto; para a partilha e para o sorriso.
No entanto, é também com essa descoberta que quero voltar, trazendo comigo e para o meu lugar, riquezas inimaginavelmente precisas para saldar o preconceito, a ignorância e o marasmo que nos mina e limita.

   

    "Eu nasci no celeiro da arte, 
     no berço mineiro, 
     sou do campo da serra, 
     onde impera o minério de ferro...
     Eu carrego comigo no sangue, 
     um dom verdadeiro, 
     de cantar melodias de Minas, 
     no Brasil inteiro...
     Sou das Minas de ouro, 
     das montanhas Gerais,
     eu sou filha dos montes, 
     das estradas reais...
     Meu caminho primeiro, 
     vi brotar dessa fonte, 
     sou do seio de Minas, 
     nesse estado um diamante..."
     
     Seio de Minas
     Paula Fernandes



Ouro Preto deu-me resquícios de um passado comum


Aqui a Arte sorri a cada pétala, a cada folhagem.

E nós queremos fazer parte disso também, por isso envolvemo-nos,
recriamos e imaginamos…
Ao mesmo tempo que entendemos o afecto partilhado entre objecto e essência, natura e matéria.

Aqui é Inhotim.


Numa cidade onde os dias não anunciam chegar, há luz, ruído, gente. 

Nessa cidade onde tudo acontece depressa e onde o bulício frenético de tráfego parece não ter fim.

Lugar de contrastes, até nas mais pequenas coisas. 

Mas ainda que díspares, os opostos misturam-se, enredam-se numa cultura de miscelânea humana, nos rumores constantes, nos cheiros, nos sabores, nos olhares – 'cê fala cantando.

E a Natureza! A que acompanha em um qualquer pormenor, aquela que não despreza por ser cidade.

Depois de tudo, ainda exibe com vaidade Niemeyer, que com mestria "arquitectou" há décadas obras que continuam a ser consideradas como modernas. 

Mas certamente este entendimento será tão menor, perante todo este país que só não é continente por um triz.